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É apenas rock’n roll, mas eu gosto!

Publicado em 12/08/2008

Caos, silêncio. Assim começou essa década.

Havia dois caminhos, duas trincheiras: resistência ou desistência?
A tribo montes-clarense do rock’n roll preferiu o primeiro. E colhe frutos. Como mostram em seus shows bandas como Sabbothage, Seu Istylinga, Vômer, Évora, o hardcore melódico do River Raiders, Vulgar, Goryy Stage, Exorcista, Ruído Jack, Umeazero, Metal Militia e o velho e bom Wagner Black. Velho e novo, maduro e saudável. Essa turma redesenha o mapa musical montes-clarino. “Detonaram com garra invulgar sua fúria e alegria sonora”, diz o papa Dirceu Pimenta, velho lutador por um lugar ao sol para este som, e que está trazendo o Made In Brazil à cidade.
Pra ficar em dois, o Vômer tem pegadas rápidas e riffs violentos, com composição próprias voltadas para o death/thrash. Lançou sem demo Lord or hell. Como o Exorcista, que ano passado colocou o Publish or perish para a turma levar pra casa. Estão no caminho.
A cidade tem, inclusive, uma Associação do Rock de Montes Claros e Região – ARMCR, com site na internet (WWW.metalmoc.oi.com.br), e mais de 25 bandas cadastradas. Outras virão.
Existe a revista UHU! Que se não rock, muito rock. Fanzine impressa que está no número dois (saiu mais algum?) por Carolina, Maíra, Pablo, Emanuela e Hayslanne. E com versão virtual, que eu ainda não achei, mas sei que existe. Chego lá!
Mas para chegar a isto, o caminho foi longo.
Nosso rock, ao contrário do brasileiro, que penou para ser reconhecido, tem pai e mãe. Mesmo sendo independente e considerado, por alguns, como marginal. Pode-se dizer que o pai do rock montes-clarino foi o Les Cherries. Tudo aconteceu numa tarde de domingo, quando o conjunto tocava no recém-inaugurado Automóvel Clube de Montes Claros. Vicente Alves sugeriu à rapaziada que enchia o salão que, quem quisesse tocar, que fosse ao palco e utilizasse os seus instrumentos. Foi quando Hélio Guedes entornou Escândalo em Família (versão de Renato e seus Blue Caps). Dali, nascia o Brucutus. Formado por Beto Guedes (baixo), Cabaré (bateria), Patão (guitarra ritmo) e Tiupas (guitarra solo), o Brucutus trouxe o rock britânico para a cabeça da rapaziada. Passou a cantar no Max-Min e nos clubes desse grande sertão, com tanto sucesso que precisou arranjar um “Brian Epstein”: e o escolhido foi Waldir Baiano.
Isto, no final da década de 1960.
Beto era o mais experiente: vinha do The Beevers, de Beagá, formado com os irmãos Lô, Márcio e Yé Borges.
Depois, veio um período de estranhas ilusões. Enquanto lá fora o bom e velho rock’n roll se expandia, com Mutantes, Bolha, Bixo da Seda, Terço, Barca do Sol, Arco-íris (do Fábio Jr.), Moto Perpétuo (de Guilherme Arantes), Flying Banana, Som Nosso de Cada Dia, Vímana, – de onde saíram Ritchie, Lobão, Lulu Santos – Raul Seixas, e a marginália total da década de 1980 (liderados pela Blitz), aqui a coisa ia a banho-maria.
Tino Gomes criou na década de 1970 o The Wids, junto com Ricardo Xarope, calcado em músicas de Credence, principalmente. Foi, entretanto, o broto para o Grupo Raizes. Existia também “ATripa”, conjunto underground, com Udo no vocal – cadê você? –, e o punk do Ataq. Cardíaco, do poetinha Aroldo Pereira.
Nosso rock era uma transação marginal, amadora, mas cheia de garra. Não dava dinheiro nem para pagar as despesas, recebia criticas do pessoal, mas fazia a cabeça de quem estava a fim de rock ao vivo.
Dirceu Pimenta lembra, ao telefone, o Elthomar Santoro Jr que chega ao norte com seu lado irreverente e projeta o Rock na Cidade. Ali apareceu Virna Lise com sua fusão rock-catopê. Ficou! Gravou três CDs, a banda é conhecida nos Estados Unidos e na Europa... E o gorutubano Cícero Billie Alves, com seus quatro CDs.
E o Zé Osga, The Wizard, Urublues, Aeracia, Aristides... Teve muita gente que, por meio dessas bandas e cantores, descobriu que nem tudo estava perdido. Nem tudo eram marchinhas para ir pra frente, trilhas de novela ou canções açucaradas sobre a mulher amada. Ou, pior, o axé baiano.
Foram os primeiros roqueiros assumidos do norte destas Minas de Rosa. Não faziam iê-iê-iê romântico, ingênuo, não eram tropicalistas intelectualizados. Eram do rock mesmo. Dos festivais que, subdesenvolvidos ou não, pintavam. Das transas da contracultura. Enfim, gente que veio da era pós-Woodstock.
Agora, outros músicos cuidam para que a fogueira do rock não se apague, pois ele, que já foi um lance para poucos e loucos, como uma sociedade secreta, cresce, mostra sua garra. Os shows já deixaram de ser anunciados de boca-em-boca, os grupos já sobrevivem a mais de uma apresentação.
Estes anos 2000 assistem ao nosso rock do pequi com consciência de coisa nova. Rock de briga! De transas esotéricas. O som da tribo que esta sacando tudo.
Pode não pintar nada de novo – como muitos esperam –, mas o rock montes-clarense vai correr solto para quem está de orelha em pé. Não podemos esquecer que são tão poucos os elementos para o rock poder existir. Basta uma batida, um refrão, uma rima e um coração que pulsa.
É apenas rock’n roll, já diziam os Rolling Stones.
But I Like It!
É apenas rock’n roll, mas eu gosto!
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