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Coisas de quaresma e de amor

Publicado em 29/07/2008

 

Algumas casas da minha cidade ficam atualhados de almas penadas. Alguns, cismam de não sair de casa. Ficam sentados nas suas cadeiras, principalmente se forem aquelas velhas, de balanço, balançando o tempo todo. Outros são colecionadores de tudo e de todos. Gostam de andar pelos quartos, chegam perto da gente e, quando a gente olha, nem lá estão mais. Ficam com vergonha e deixam em nós a impressão de ter visto alguém que queríamos ver. Outros ainda são aqueles que, quando em vida, morreram como um passarinho. Vão direto para o céu, sem passar em nenhuma mediação. E lá de cima – ou em baixo, ou ao lado, ninguém sabe ainda em que dimensão estão – mandam luz para os que gostam e que continuam a vida pelas ruas da minha cidade. Ora pro nobis!

Não gosto destes fantasmas que andam agora perto de mim. Que aproveitam este tempo de Quaresma para nos quaresmar, assustar e arrepiar, sem nunca serem vistos. Prefiro aqueles de antigamente, quando minha mãe contava histórias de ninar, de fantasmas, bruxas e lobisomem em noite de lua cheia. Estes de agora vêm dos porões da ditadura, são algozes, biltres e trazem o câncer na alma. A gente precisa falar de vez em quando dessa temática, a ditadura, para não cair nessa coisa de novo. Pra gente não esquecer. Precisamos mostrar aos nossos filhos que naqueles dias era perigoso ir à esquina, aos bares. Era um tempo de esquecer os amigos, pois ninguém estava seguro nas ruas. Era tempo de oferecer a face a quem quer que seja, de guardar o riso, como nunca se fez. Nossas crianças devem ler “Brasil Nunca Mais”, “Rompendo o Silêncio”. Ou assistir filmes como “Batismo de Sangue”, “O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias”, ou minisséries “Anos Rebeldes” e a atual, “Queridos Amigos”. A bandeira tem que seguir sempre em frente, atrás de melhores dias.

Os tempos mudaram. Nosso coração já não fica mais em tiquiti-tiquitá. Agora, o jardim tem chorões, samambaias, o quintal tem mangueiras e jaqueiras. As ruas estão cheias de pessoas, que passam perfumando o ar com sua loção de água de cheiro, com cordões de ouro no pescoço e rosário na mão. Os cordões são quase sempre levados pelos meninos que moram nas esquinas, debaixo de marquises ou na avenida, e que a gente finge que não vê.

Hoje, os meninos nem acreditam mais em Deus, estão dispostos a cheirar e morrer. Não mais cheiram cola, cheiram coisa pior, o branco. Por isso, ainda temos que andar de olhos arregalados, de dormir com os olhos arregalados, como ensinou Georgino Jorge de Souza, que trazia a bondade no coração, sem nunca demonstrar que era bom. O tempo mudou, os dias são melhores, são outros, já não há falta de amigos. Talvez haja falta de escolha.

Alguns destes dias são de gostosura que dá formiga na cama e faz a gente levantar cedinho, ver o sol raiar. Como é gostosa a vida, como é gostoso o encontro com a mulher amada - na hora em que ele se realiza e ela nos ama. Como é gostoso o hipnotismo da sua fala, me entra bem, me faz sentir melhor, me dá gostosura de tesão. Como sinto falta disso. É tão pouco para a felicidade...

Gostaria de sair um dia por aí, doido de pedra, pintar no muro em frente a nossa casa uma frase tipo "fadinha, sou seu arauto, seu peregrino devoto", pra que você não fique triste quando eu acordar com cara zangada, de poucos amigos. Devo ter dormido mal, com o diabo fazendo cócegas no pé da gente a noite inteira, os meninos gritando, sem querer ir pra aula, nossa pressão subindo. Os dias são assim.

Eu quero-quero se é que eu quero, mas não desespero. Te quero, de querer passado, de escutar Loy Damasceno cantando ‘Quereres’ de Caetano. Fiz meu contrato com você, sou seu, pois contrato é trato, acerto, preto no branco, para serem cumpridos no ato por anspeçada, cachorro e gato. Até uma tartaruga chamada Carolina, mas que cismam de chamá-la de Reginaura.

Estamos na Quaresma, e tem uma rua aqui perto que dá de tudo, de cramulhão a lobisomem. Lembro que era pequeno, mas daqueles pequenos de ‘Marré de Si’, e contavam histórias na sala de casa. Era época de lobisomem quando Jesus morria, era época da Mula Sem Cabeça, enquanto Jesus não renascia. Ainda apimentavam que na rua das putas, naquela época também Padre Augusto, tinha uma família de lobisomem. Um amigo de meu pai, Manoelito, ex-jogador do Ateneu, e que morava perto da casa de vó Mariinha, na Malhada das Almas, contava ter visto a família toda na rua. O lobisomem, a mulher lobisomem e os lobisomenzinhos, pequenininhos, bonitinhos, que saíam atrás do pai, nunca da mãe. Ele freqüentava o boteco de Athaíde, ‘O Garrafão’, onde hoje existe o hotel Panorama, na praça Cel. Ribeiro.  Athaíde era exceção. Abria na Sexta-feira Santa e vendia um bolinho de bacalhau feito com peixes da região que era uma beleza. Não sei o que o lobisomem ia fazer naquele lugar, mas a história era que ele ia pra lá com seus  sete filhos...

Às três da madrugada era puro medo!

Nestes tempos de Quaresma, muita coisa acontece com a gente. Até danoninho a gente fica com vontade de comer, lambendo os beiços, enfiando o nariz. Melhor que um doce-de-figo e quebra-queixo.

Eu quero-quero se é que quero, mas não desespero, ficar imaginando que o sol sempre nasce no lindo pendão dos olhos da minha mulher, quando ela surge à noite na cauda de um cometa. Deixa meu coração zureta! Ela não sabia que pecar na igreja sempre foi mais gostoso. Ainda vamos pecar juntos lá, pra ela ver como é gostoso!

Uma vez virei hippie. Acho que trago este lado hippie até hoje no meu canto esquerdo. Ele dói de vez em quando, de saudade. Quando estava voltando de uma viagem a Salvador, o Ricardo Xarope, Washington e Fidel ficaram em Caculé. Eu continuei a descida naquele trem baiuno, cheio de mouros, farofa, café, bolos, naquela cadeira de pau, a segunda classe. Parei em Monte Azul, naquele breu, a estação distante da cidade, a gente andava no escuro, a gente dormia lá. Sem dinheiro, procurei o padre, para ver se passava a noite no banco da igreja. Na Bahia, ele deixavam. Em Minas, não.

Na Bahia, os padres pintavam (ainda pintam?) e bordavam (ainda abordam?). Em Minas, não! Em Minas, os padres são mais sisudos, e lembro que havia cheiro de sedenhos e abortos ao lado da igreja de Monte Azul. É uma história que não se conta: segredo. Mas dormi ali, ao lado da igreja, numa pracinha que depois, quando amanheceu, vi que era bonita e não tinha nada de assustador. Até o cheiro havia passado. De lá pra cá, na janela de uma carona, vi o sertão de buritis e carnaúbas, umbu e pitombas, passeei pela Europa, França e Bahia naquele dia, dentro do meu coração.

Ah, menina, ainda vou virar seu cantor, sua fonte de suspiro, seu vampiro, sua arte final. Você vai ver! Ainda seremos felizes para sempre, enquanto o sempre durar ao nosso derredor, com a folia dos meninos. Pois nada vai estraçalhar a esperança de nós dois, você no meu colo, gostosa, cheirosa, amorosa, com a voz me hipnotiza. Vou gozar muito ainda em seu colo, mulher. Espere pra ver.  E não é espera demorada, nosso caminho segue tração, nosso destino traçado faz que sejamos um só. Pela água que nos benze, Deus seja louvado!

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