| Sexta-feira, 9/01/2009 |
Só Deus sabe por onde andei...
Publicado em 29/07/2008
(Chegou o Tino Gomes com prazer e alegria...)
Ao lado do Tino e da turma da Dr. Veloso, vivemos os melhores anos da nossa vida. De descobertas, de anseios, de amor, de experiências. De formação cultural, intelectual, sexual. O homem tem seu destino traçado!
Nessa minha vertigem de hoje, escutando seu último CD, Catopezera Brasilis, olho rápido ao redor, ouço e escuto e constato que sua música fica cada vez mais adolescente, mais carismática, mais gostosa de se ouvir. Tem mais rebuliço, mais frivura, mais burungundum com o bater do tambor. E como bate o tambor dos catopés, dos marujos, neste Catopezera Brasilis!
Decerto, Tino escondeu bom leite poético em muitos cadernos, pois cinquentão continua adolescente, dançante, zabeleza como ele próprio diz. Tino é artista desde quando tomava mamadeira no colo do Seu Dito e, na hora da birra, chorava
Esta feijoada sonora, como retratou Jorge Fernando dos Santos, passeia por ritmos e ritmos, mas sempre dentro desses Montes Claros que vive em seu coração. Seja no fundo, seja à frente, o disco vai e volta à sua cidade. Até em músicas outras que não do Tino, como Menina Mineira.
Meninas de nossa Minas, por sinal, é o que tem em segundo lugar neste festival de canções apresentado pelo montes-clarino Tino.
Do gostoso “Pandeiro Dela”, “Loura e Morena”, passando por “Eu Fui Pra Bahia” e a busca do amplificador em “Minas com Bahia”. É a Bahia de nós todos, norte-mineiros confundidos pelo jeitão da fala, jeitão mocorongo de ser. Talvez a gente um dia parta voando, como um beija flor. Mas vai demorar ainda, pois ainda sou um viajante sideral.
Tino ainda guarda em si o prazer pela música, pelo viver, coisa difícil de encontrar em quem está parado no tempo, parado na cidade. Catopezera continua o trabalho de “Bagdá-Pequi”, “Gente Festeira”, “Forrozeiro, Folião”, “Raio de Luz”, iniciado em “Saudação”. Tino continua brincando de ciranda na praça central, continua com seu coração delicado feito pluma, como bolha de sabão, continua refazendo, nas manhãs, o milagre dos pães. Continua artesão de sons norte-mineros que consegue, como ninguém, transformar em universais.
Nas lembranças, regrava “Sideral”, um dos seus maiores sucessos, esquecido que estava num canto de discoteca destas rádios que se dizem musicais, mas tocam tanta merda.
Além de estar atual, nos leva ao passado dos anos 80, quando a música dele e do Georgino Junior fez sucesso em todo nosso mundo.
Lembrei-me do Emílio, do Raimundo Bocaporca, Moema, Marília, Belinha, João Ripão, Nôra e seu jipe. E de Rosane, Marise, Helena, Didi, Andréia, Mary Magra, Rosângela, Agnaldo do Melo, The Wilds, Zezinho, Gudinho, Carlinhos, China, Tuzinho, João primo de Zezinho e namorado de Marise.
Lembrei-me de Tábua de Maçã, Claudin, Requeijão, Marlene Bundadepano, Dan, Dó, Paulinho Goiaba, Iran, Dinga, Rogério Caradeboi, Bola Murcha, Magela, Renato. E Fernando Zoiudo que foi mexer com peixes na Codevasf.
Sem esquecer dos mestres Dona Carmina e Seu Romeu.
E daqueles que já se foram, Ricardo Xarope, Hudo, Valtinho, Mary Gorda, Celso Leal.
Tudo passou em minha frente como uma fita de cinema, como um yê-yê-yê romântico.
Lembrei-me de que eu dormia na casa do Hudo, na casa do Ricardo, ou eles dormiam
Lembrei-me da viagem do The Wilds à Grão-Mogol e de uma música do Johnny Rivers que era tocada à exaustão por eles. E de Gudim se esgoelando numa música do Credence. Lembrei-me do sorriso da Marta, dos olhos tristes da Raquel, dos escritos no K-Veira com Itamaury Telles.
Lembrei-me de uma viagem de trem de ferro, sem bruaca mas com aquele calor humano. Éramos eu, Hudo, Expedito, Ricardo e Grimaldo. Uma viagem a Belo Horizonte, descendo serra, passando ponte, aonde chegamos já raiando o dia. E a noite, voltamos no mesmo trem, durmimo tudo embolado – pena não ser na casa da Filomena, com loura e morena – mas com frio, uma garrafa de pinga e pão com salame, presente de minha irmã Zelita.
Lembrei-me de quando fomos acampar no morro do Sapucaia e eu desmaiei bêbado. Lembrei-me de ver um disco voador naquela noite, mas que Bodão disse que poderia ser um avião passando sobre nossas cabeças – mas, àquela hora?
O trem de ferro que nos levava acabou. Só ele! Mas diz o poeta, a prata continua sendo a luz do luar. E a vente continua vivente.
Foi um tempo que ainda havia em nossas vidas madrugas etílicas, haviam puteiros que eram freqüentados por nós, atrás de prazeres mundanos. Em mim, só Deus sabe por onde andei...
Eu quero mesmo, agora, é andar pelo mato, ouvir suas cantigas no rádio e voltar pra casa todo cantando um bolero do Waldick Soriano. Como Tino nos ensinou. Bem ensinado! Afinal, sou um dos poucos privilegiados por conhecer um mundo que poucos conhecem.
Vida temperada essa... Olerê!
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