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Para sempre é mais que muito (Fábula de uma vida)

Publicado em 29/07/2008

 


Para sempre é mais que muito, ensinou o amigo Eduardo Brasil. Por isso, dói no coração e vira saudade quando passam os dias e só fica a lembrança das pessoas que nos são queridas.

Eu gostaria de pedir licença aos leitores e contar uma história de lealdade, de amizade, de vida de um amigo que voou para o azul infinito. Uma história e tanto, quase um conto de fadas.  Uma das pessoas mais interessantes que conheci. Não sei se vou saber contar...

Conheci alguns gênios, conheci pessoas extraordinárias, mas jamais conheci alguém como Celso Leal. Meu amigo, irmão, única pessoa em que podia contar casos e causos, relatar minha vida, expor meus problemas, pedir conselhos. Que ele nunca dava, é claro! Apenas pedia para eu pensar mais.

Magro, alto, pele clara, gestos largos acompanhando um permanente sorriso que parece dizer que estamos diante de um homem que ainda sonha. Ele era assim. Você o achava sério. Aí, abria os braços como um pássaro empertigado, ria, e nos abraçava.

Era dono de palavras, de sensibilidade, de carinho. Do modo dele. Poucos o conheceram como eu, posso dizer. Ou praticamente ninguém o tenha conhecido tanto como eu. Também, tivemos uma vida juntos, uma vida de mistérios, uma vida de amizade, uma vida de parcerias, mesmo quando estávamos longe um do outro.

Às vezes, quando conversávamos numa mesa de bar, me perdia em suas elucubrações sobre teatro, religião, meio ambiente, música, mulheres, cultura e principalmente, muito principalmente, sobre a amizade, coisa tão distante das pessoas. E a lealdade, que ele trazia no nome!

Tenho que agradecer a Deus por ter sido companheiro dele durante tantos e tantos anos nesta vida. Agora, a banda passou, o que era doce se acabou, a Rita (?) levou seus cinqüenta e poucos anos...

Sonhamos acordados diversas vezes.

Quando cismou em construir um teatro na cidade, num lote que dizia possuir, mas nunca me mostrou pro’s lados do Delfino. E que iria preservar seu nome. Nem precisava disso para preservar o nome.

Quando queria ser locutor de rádio, quando queria fazer cultura, quando...

Professor de religião teve criação religiosa como eu, e até pensou em ser padre. Queria mais que rezar, ter um compromisso social. Sabia, em suas aulas, apaixonar alunos.

Quanta aventura fizemos juntos.

Em 1972, na Escola Estadual Plínio Ribeiro, logo depois de ganharmos a eleição do grêmio com a chapa Merceno (o presidente era o Jaime Cruz), escrevi uma peça a quatro mãos com ele. Chamava-se BD, e os originais nem eu nem Celso deve saber onde foram parar. BD era uma peça triste. Principalmente isso. Uma peça nostálgica e bem triste. Mas que também era alegre e sorridente. Dependia do modo de olhar. Dependeria também do dia e estado em que a pessoa estava. Nunca foi apresentada...

Em 5 de agosto de 1973, numa noite no Mangueirinha, disse uma de suas frases eternas, gravada numa das páginas de uma coluna que eu tinha no Diário de Montes Claros: “a vida é um pileque”. Ele acreditou nisso até o fim. Pena não ter morrido de pileque!

1974, Belo Horizonte, movido à fé e determinação, saíamos às cinco horas da casa de minha irmã Zelita, Avenida Brasil, Santa Efigênia, e íamos caminhar pelo centro da cidade com destino ao Mineirão, fazer vestibular. Sob o sol do meio-dia naquela BH de janeiro, suando as bicas, lá estávamos nós caminhando de volta, ao ritmo de suas palavras roucas, loucas, sobre a vida, sobre as putas da Lagoinha e as putas do norte, sobre as opções de vida de cada um, sobre o Brasil daqueles anos.

Ele falava e todo o seu corpo vibrava de emoção. E quando dizia que estávamos construindo uma aventura humana, parava, olhava fundo nos meus olhos, coçava o bigode, e se desculpava pelo amor em excesso que tinha por todos e por tudo.

Depois, partíamos para o barzinho de seu Antônio, pai da Nelcy, no bairro Floresta. Na falta de carne daqueles tempos, ovos coloridos tirava o gosto da cachaça norte-mineira. Carne, só nos hospital Felício Roxo, guardada por Beatriz.

Celso me fez aprender muito sobre seus pequenos grandes personagens, seu olhar critico sobe a sociedade, sua fé na humanidade, seus sonhos românticos, seu coração exposto ao sol do meio dia. O mesmo coração que parou, subitamente, num domingo à noite, 18 de maio, um ano e seis meses após parar o de Jorginho.

1989 ficou comigo, junto com Porretinha, em Janaúba. Faziam um trabalho político, que acabou na eleição do prefeito. À noite íamos para o bar do Bila, onde jogava sinuca com alguém ou sozinho, não importava. A luz daquele cabaré, entre tilintar de copos e fumaça de cigarros, os amigos vinham e iam. Às vezes, saia de lá com o sol do início do dia fazendo uma festa na Rua Francisco Sá, resvalando pelas paredes, iluminando os becos, lambendo um volks azul sempre estacionado na esquina da praça Dr. Rockert. E ia pro trabalho.

Celso era um revolucionário. Ensinou-nos que devemos chegar rápido ao destino, pois aprendeu cedo que não se deve deixar o destino esperando. Fez da vida o que deveria ser feita: a vida concreta, dinâmica, cotidiana do homem comum, da tristeza e da alegria comuns. Falava pelos cotovelos, batia e repicava, a torto e a direito.

Às vezes, dava um giro nos calcanhares de tanto falar.

Uma vez, de algo que eu disse, num dos tantos Natais que passamos juntos, ele, com a emoção a flor da pele, tapou a boca com as mãos para evitar que o coração fugisse.

Eu não tinha a prudência que Celso tinha. A prudência de quem sabia o tamanho do que estava gerando. Ele sabia envolver as pessoas. Em certas discussões, e Dulce Veloso sabe disso, ele crescia, seu sangue inchava, virava um gigante, com aquele vozeirão de família, herdado quem sabe de quem?

Hoje vou ao Mangueira’s ou no Bar do Renato, pois vou deparar com o seu fantasma sentado numa mesa de canto. Vai estar ruminando livros e histórias, tendo visões de Vomu Popono, Pasárgada, Espumas Flutuantes, Explosão do Silêncio ou Demétrius, do Ray Mendes. Vamos falar dos nossos companheiros da casa do Seu Romeu, do primo Tino Gomes, das viagens a Belo Horizonte e Janaúba, tantas e tontas coisas que ainda temos para conversar, enquanto nos deliciamos com uma cerveja já quente, de tanto esperar essa conversa nossa, envolvida pela fumaça de seus cigarros...  

Ainda vou reencontra-lo nas mesas dos botecos, onde foi seu segundo lar durante muito tempo, e onde ainda hoje seu espírito errante e boêmio volta a reencontrar, quando sai em busca dos companheiros. Quando sai em busca de uma boa música, do som do Caetano Veloso, que encharca nossa alma e nos deixam sentimentais como o diabo gosta.

Será que fizemos uma história de sonhadores, de idealistas lutando contra moinhos de vento? Não sei, e quiçá, nunca saiba!

Entre eu e ele, muita coisa foi dita, outras ficaram por dizer, e outras tantas ficaram nas entrelinhas. Celso queria fazer arte e cultura, e não apenas diversão e arte. Arte e cultura, segundo ele, cumprem uma função social, coletiva, mobilizadora, de preencher o vazio existencial próprio do ser humano. Diversão e arte é outra coisa...

“Meu amigo era um tigre de papel.

Rangia, rugia, mordia, mas não passava de um tigre de papel”, toca lá longe, no céu azul infinito...

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