| Sexta-feira, 9/01/2009 |
Dona democracia bateu asas e voou
Publicado em 29/07/2008
Do alto dos meus 15/16 anos, recebi bronca de seu Novaiszinho por usar aquele tipo de calça. E olha que Rays já havia vestido uma camisa vermelha, tipo a que Roberto Carlos usou na capa de um disco.
1968 pode ainda não ter terminado como dizem os mais exagerados. Mas o programa Jovem Guarda acabou naquele agitado ano que mudou a face do mundo.
Acossado, de um lado, por uma juventude politizada, encantada pela ascensão das idéias de esquerda, pelo psicodelismo tropicalista que começava e até mesmo pelo programa do Silvio Santos, a atração das tardes de domingo, que encantou uma geração, acabou, sem choro nem vela, num dia qualquer de maio. Mas a marca que ele havia deixado em nós, ficou pregada como uma tatuagem.
Na nossa turma, Altany Castro Silva, o Taninha pra nós (hoje, China do Automóvel Clube) era da gema. Enquanto eu, Marquinhos e Getúlio Amorim, o resto da gangue, tomávamos Crush, Taninha era o único que se servia de Cuba Libre. Daqui, ó!
Também era o único a entrar, à noite, no quintal de Dona Vidinha, na Coronel Prates, para roubar jambos. O resto da patota ficava com medo de um defunto qualquer aparecer.
E era o único que não usava um anel Brucutu, que nós “conseguíamos” dos fuscas. Um, ficou parado em frente à casa de Arthur Ramos. E o Brucutu, aquela coisinha de jogar água no vidro da frente, desapareceu. Baita confusão!
O meu sonho mesmo era ter uma Monareta, igual à de Zé Guedes, que ia nela para o Redondo, barzinho tão longe, mas tão longe, que só dava para ir mesmo vez ou outra. Era uma estrada poeirenta que terminava no Max-Min. E eu ia ao redondo só depois de passar o dia no clube. Eram as jovens tardes de Domingo, como lembrou Roberto Carlos.
Nosso quarteto se considerava prafrentex, gente boa pra chuchu, barra-limpa mesmo. Inserido no contexto, como deve ter lembrado o João Carlos Sobreira.
Éramos praticamente vizinhos da Dr. Veloso (Taninha morava mais longe, no início da Viúva Francisco Ribeiro). E era ele o que fazia mais bico. Por qualquer coisa!
A diversão daqueles dias, quando não era ir para a casa do tio Geraldo, na Praça Portugal, tentar assistir a Jovem Guarda, junto com a prima Bete – a televisão ainda era de muitos vultos, muito chuvisco e pouca visibilidade -, era esperar a carona do mano para ir nadar no Max-Min. E, depois, tomar Crush no Redondo. Um estouro! Aguardava a semana inteira para isso.
No ar, aquele sentimento de algo novo, de um pessoal mostrando coisas diferentes do que a Maísa, que tocava – e toca – muito em minha casa. Era tempo de descobertas de canções, de muita ingenuidade, emoções, paixões.
Do Aero Wylis, bambolê, calça boca-de-sino, Dr. Kildare, Família Trapo, camisa Volta ao Mundo, Fusca, dos catecismos de Carlos Zéfiro e do Mug.
Ah, o Mug! Cultuado, aquele bonequinho, preto, estava sempre vestido com uma roupinha quadriculada em tons vermelhos. Diziam que dava sorte. A mugmania virou culto... Topo Gigio até tentou ocupar seu lugar, mas não era o tal.
Aos domingos, no Max-Min, o bom era comer um cachorro-quente feito pelo Baiano, hoje fazendo churrascos no Ferroviário. O clube, naquela época, acreditava eu, recebia algum do Roberto Carlos. E Baiano confirmava. Era só sair disco do Rei, que tocavam a tarde toda. Não tinha pra outro. Foi lá que aprendi muitas das canções, naquela piscininha que hoje, nem sei se existe. Sabia na ponta da língua. Bons anos aqueles da década de 60! Ainda éramos ingênuos, mas nem sabíamos disso.
Aproveitar, ser bicão, bidu, o pão, dar bola, gastar o latim, freqüentar um chá dançante, flertar, ser inserido no contexto e ter sua gangue. Afinal, que era da nossa gangue não tinha medo. Gangue dos quatro.
Daquele tempo, ficaram as canções do Roberto. Muitas.
Ficaram também as doces lembranças da paulista Vanusa (Pra Nunca Mais Chorar), de Martinha, o queijinho de Minas (Eu Te Amo Mesmo Assim, Eu Daria a Minha Vida...), Antônio Marcos (Tenho Um Amor Maior Que o Seu, Oração de Um Jovem Triste), Elizabeth (Sou Louca Por Você), Leno e Lilian (Pobre Menina, Eu Não Sabia Que Você Existia), The Jordans (Tema de Lara), Valdirene, a “Garota Papo-Firme que o Roberto falou”, Wanderley Cardoso (Doce de Coco), Ronnie Von (Meu Bem), Renato e Seus Blue Caps (O Escândalo, Primeira Lágrima), Jerry Adriani (Doce, Doce Amor, Ninguém Poderá Julgar-me), Reginaldo Rossi (Mon Amour, Meu Bem, Ma Femme), Wanderléia (Prova de Fogo, Foi Assim (ou Juventude e Ternura), Te Amo, Exército do Surf), Márcio Greyck (O Mais Importante é o Verdadeiro Amor).
Depois disso, fundiram a nossa cuca.
Era o dia seguinte da festa de arromba que havia balançado o país. Pior: dona democracia bateu asas e voou: mergulhamos em trevas profundas. Perdemos a ingenuidade.
Aí, sim, bateu aquela vontade de cantar “Quero Que Vá Tudo Pro Inferno”. A vida se transformou numa sucessão de instantes ardentes, uma espécie de corrida contra os segundos, uma apaixonada fuga para o adiante. Nos tornamos guerreiros. E estamos na luta ainda hoje.
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